quinta-feira, 24 de setembro de 2026

 Ainda acordo com gosto de fracasso.

O espelho diz que não sou poeta,

sou um homem que digita devagar

enquanto o mundo cobra juros.

Escrevo num caderno barato.

As letras saem tortas,

como se também estivessem com medo

de não servir pra nada.

Já pensei em desistir.

Várias vezes.

Jogar tudo na gaveta

e aceitar um emprego

onde ninguém pergunta

o que eu sinto às três da manhã.

Mas há uma frase que insiste.

Uma mulher que não morreu.

Um beco que inventei

e agora me chama de volta.

Ela quer saber quem é.

Quer que eu termine a história dela

antes que eu termine a minha.

Eu não tenho dinheiro.

Não tenho aplausos.

Tenho uma mesa bamba,

um relógio parado,

um silêncio que late.

Mesmo assim,

quando a cidade dorme

e o medo cochila,

eu escrevo.

Não porque acredito em prêmios.

Escrevo porque se eu não escrever,

alguém dentro de mim

morre sem certidão.

Talvez nunca venda um livro.

Talvez ninguém saiba meu nome.

Talvez eu morra num quarto alugado

com páginas suficientes

para forrar o caixão.

Mas hoje tem uma página.

Hoje tem uma vida

que só existe porque eu insisti.

Hoje eu ganho o pão

de um jeito torto:

invento gente,

perco gente,

choro por gente que não existe

e ainda assim acordo amanhã.

Isso não é glória.

É mais que isso.

É um homem comum

segurando o mundo

com uma caneta sem tinta,

soprando em cima

até ela voltar a escrever.

 Queria ser um escritor.

Não por glamour,

mas porque as palavras

podem pagar o aluguel

se eu souber sangrar direito.

Ter meu sustento nas palavras.

Acordar antes do sol

e sentar diante da página

como quem bate ponto

numa fábrica de fantasmas.

Criar mundos.

Pôr gente neles.

Dar a essa gente fome, medo, esperança.

Amar e odiar personagens,

meus personagens,

eu mesmo em personagem.

Ser o juiz e o réu

na mesma folha.

Ganhar o mundo

sem sair da cadeira.

Conhecer mais histórias

do que cabem numa vida.

Ouvir o vizinho, o cobrador,

a mulher que espera o ônibus

e inventar o que ela não diz.

Depois voltar para mim

e escrever o que não sei.

Não quero ser importante.

Quero ser lido

por alguém cansado,

num quarto pequeno,

que pense: esse sujeito

entendeu o recado.

Quero morrer um pouco

em cada parágrafo

e continuar vivo

na próxima frase.

Mas enquanto isso não acontece,

lavo a louça,

pago a conta,

olho o papel em branco

e digo baixinho:

ainda não.

ainda não.

hoje.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Passo

 O passo que dou agora

já não é meu.

Pertence ao chão que cede

ao ar que desloco

ao tempo que uso.

Passo e o mundo passa.

Passa o dia na janela

passa a fome na esquina

passa a vida que não pede licença.

Passeio entre os restos

do que não fiz direito.

O passado não passa

ele se senta à beira do caminho

e assiste meu passo vacilante

como quem vê um filme

já sabendo o final.

Uma passagem

Estreita entre o medo e o esquecimento.

Secreta, que só os pés conhecem

quando a cabeça dorme.

Passo em falso

e o mundo inteiro treme.

Passo firme

e ninguém nota.

O passo certo não faz barulho

apenas chega.

Há os que passam sem marcar.

Há os que marcam sem passar.

Eu quero apenas passar

deixando no chão

o desenho breve de um pé

que a próxima chuva apaga.

Passo a passo

a estrada some atrás de mim.

Passo a passo

o que vem adiante ainda é névoa.

Só o passo é real

só ele negocia com o chão

só ele sabe o peso

de carregar um corpo

que insiste em ir.

Quando paro

não é descanso

é pausa para ouvir

o passo dos outros

que continuam

que sempre continuarão

porque a vida é isso

gente passando

gente passando

gente passando.

E no fim

o que fica

não é o passo

mas a passagem.

O vão que se abriu

entre um pé e outro

entre um dia e outro

entre eu

e o silêncio.

Tentando acertar o passo

 

O primeiro passo é sempre o que a gente lembra.

O segundo, a gente sente.

O décimo, a gente esquece que começou.

Tem passo que a gente arrasta

como quem não quer chegar.

Tem passo que a gente alonga

pra ver se o caminho dura mais.

Passo de pressa,

passo de fuga.

A gente anda e nem percebe

que o chão muda de cor

que a sombra muda de lado

que o passo seguinte já não é

o mesmo que a gente planejou.

Às vezes o passo é largo

e a gente pensa que tá perto.

Às vezes o passo é curto

e a gente nem sai do lugar.

Passo em falso.

Passo marcado.

Passo que volta.

Passo que some.

Tem passo que a gente dá por dar

só pra dizer que andou.

Tem passo que a gente conta

como quem conta moeda

como quem quer juntar distância

pra trocar por alguma coisa.

E no meio do caminho

a gente descobre

que passo não se acerta,

se acolhe.

Que passo não se mede,

se vive.

Que o passo da gente

não é o passo do outro

nem devia.

Tem passo que desaprende.

Tem passo que inventa.

Tem passo que carrega.

Tem passo que solta.

E quando a noite chega

e a estrada some,

o que fica não é o passo certo,

mas o chão quente

de quem tentou.

Passo a passo.

Passo com passo.

O passo é a prova

de que a gente ainda

vai.

sexta-feira, 24 de maio de 2019


Desatino

Seu início foi apenas uma ideia
Passageira (e) inofensiva 
Uma quase companhia - absurda e furtiva
Silenciada por gritos da rotina e
Pelo cansaço dos dias, meses, anos...
É nesse silêncio que o quase e o absurdo se vão
E seu assombro aparece em claros sintomas
Como relâmpagos, trovões e nuvens escuras
Que antecedem uma tormenta,
A qual passará sem o despejo.
O vento não soprará nesta direção
Falsos apegos gerados do medo
Sem previsão
O céu cairá
E toda lucidez submergirá
A velha rotina, agora silenciada, sucumbirá
Aos pés de uma nova irrealidade mundana
Tão abstrata e vivencial
Nas ruínas do substrato
Que ainda serei eu.

sexta-feira, 5 de abril de 2019


Para além daquela circunstância,
Meu (in)oportuno deslize revelou a capa da minha chuva
Um bramido da genuína verdade, escondendo-a às claras,
Negaceando sua face à aparente lucidez meus sentidos.
Peregrino nesse arcano, pisando descalço em terreno árido.
Sob o sol, testemunho com lamúria a sombra do que fui e sou.
Exasperado, quimera qualquer se torna um covil,
Um recolhimento para minhas inseguranças,
No qual não há luz ou vislumbre algum do que serei
Não há mais engano aqui, não terei tal destino,
Pois as gotas da minha chuva não caem ao chão 
Nem mesmo se esvanecem.
Meu corpo vagueia quase sem vida
Sendo afogado em minha própria chuva.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

É chegado o fim
Fim do dia
Fim de semana
Fim do mês
Fim de uma era
Da minha, era?
Era uma vez
Uma vez só
Uma era muito bem perdida
Muito bem, perdida.
Ah, o escárnio 
E agora?
Abro os olhos
Levanto
Caminho
O caminho é outra história...

quinta-feira, 6 de abril de 2017

et lux in tenebris lucet.
Quando pequena e racemosa, não há hábil lucidez.
Criam-se sombras daquilo que era vívido, e tudo vira ancenúbio.
Verdadeiras fantasmagorias que me guiam para longe.
Quando demasiadamente luzidia, ainda que apresente a vida,
Tira-me o sentido e revela-me os segredos da cegueira.
Bafejos transformam a pequena flama em archote.
Borrascas amainam tamanho brandão.
Quanta vida investida...
Ah, mormaço impiedoso.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Despedida

O clamor tem se alastrado em mim.
É tão tácito e visceral.
Eu não quis enxergar os sinais de emergência
E tentei negar o padecimento, mesmo, e principalmente,
Diante do anúncio diário de um cortejo fúnebre infindável.
Uma urna cheia do meu vazio estava ali, mas não eu.
Aquilo não devia ser eu, pois não havia nada ali.
Dentro daquilo eu não era mais nada.
Lugar algum me pertencia.
Mesmo desejando, não estava em lugar algum.
Não havia choro ou lamentação.
Nenhuma palavra de conforto.
Palavras...
Eu as apaguei a cada sentido errado que me indicavam,
Em todo ajustamento para ligames,
Em todo nó, um erro
E em cada erro meu, que fez ou faz qualquer sentido,
Palavras...
Eu as deixo como vestígios daquilo que nunca mais serei...
Um corpo em clamor.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Pelado e inerte, observei tua bestialidade e encarniçamento
diante da perda do domínio que tinhas - apenas em tua conjectura.
Naquele instante, de tudo que ouviste, que eu havia realmente dito?
Nesse instante, é vetusto. Nem mesmo eu sei.
Passaram-se apenas alguns segundos e tu ainda estavas vociferando
 – há muito não mais te ouvia.
O que sei é que, para mim, perdeste a excentricidade,
Aquilo que te era raro, a tua estranhez,
Aquele respirar que conduzia e atiçava minha curiosidade e meu desvelo.
Não pude – não quis – lidar com teu marasmo.
Tua nova monotonia se alastrava em mim como uma septicemia.
Tua bravata se desfez perante a minha.
Tu, permeada de puerilidade diante do entejo.
Eu, supostamente impassível, mas desejante de comiseração qualquer.
Saíste sem dizer adeus.
Quanta indelicadeza tua.
Quanto azedume meu... 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Rodopios de uma história convoluta
Em torno de um centro impassível e baldo.
Guardo, no bolso, um molho para meu êxodo e
Um mapa da minha alcova, este cipoal
Onde tudo há, exceto intento de existir.
Na cabal lassidão, esquivo-me do reflexo, do trato
E do veraz viver...

sábado, 9 de julho de 2016

Quanta sede perante o copo vazio!
Escarneci-me pelo medo que tive, 
Durante incontável ínterim - a vida inteira, talvez - 
De prosseguir - com este escrito. 
Medo de preencher o vazio 
Com sombras nas quais me escondo, 
Nas quais todo impossível tem sido permitido. 
Em mim, como sobejo, a verdade, 
mas a repulsa a ela tem se mostrado implacável, 
tornando o meu viver um cediço acessório. 
Quanto co(r)po perante a sede de vazio!

domingo, 26 de junho de 2016

Sossego prazerosamente, absorto em ilusões,
Criando cenários cada vez menos prováveis e,
Nem por isso, de alguma forma, menos tangíveis.
O sentimento lacerado urge voraz pelo recobro fantasioso.
Quanta desarmonia! Opoentes proclamados. De um lado,
Doces lembranças carregadas de modesta, mas suficiente, glória,
Alimentam essa cata de regalos tão desditosos.
De outro lado, dissabores de um mundo que sempre foi mais meu.
A realidade corrente que me assusta e usurpa a resistência.
Seria fácil, se possível fosse, escolher o abandono seleto,
Sem proporção justa daquilo que penso
E sinto como divícias sublimes
Em detrimento de alguma – qualquer – paz.
Percebo-me, mais uma vez, desde o último “se”,
Orbitando indefinidamente no malogro.
Apesar de tudo, sigo num estranho e inquieto quase júbilo.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Imerso num hausto longo demais,
Não consegui retornar à superfície e
Senti que me afogava naquele único gole de ofensa sorvido.
Já não enxergava superfície para retornar.
Uma contínua autoconstrição na voragem da insegurança.
Havia me transfigurado nesse engodo.
Antes, seminal. Agora, descrente e precito.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Às vésperas de um tempo qualquer,
Sazonal como ontem, e sempre e nunca,
Desejei reconsiderar a existência da fé
 - que nunca desfrutei
Aquela que me parece tão cara, mas obstruída.
Aquela na imagem refletida ao fitar um espelho.
E trilhei, aos tropeços, por esse caminho ínvio e sem atino,
Encontrando, alastrado, o medo de reconhecer-me culpado.
Módico demais, tenho me quebrantado intencionalmente, mas
Quase sem perceber, batizado como autora e carnífice, (a)ventura,
Do meu aprazível drama.
Agora, como antes, estruturo-me num ensaio de esquiva dos encargos,
Num êxito único de um savoir-faire chinfrim.

sábado, 19 de março de 2016

Protestos sem pretextos. 
Pretextos para protestos.
Haveria algum pré-teste
Para tantos prós? 
Não (?) sou contra os prós e prés.
Nesse estado precário,
Precavido,
Prefiro o próprio amor.
Amor-próprio.

terça-feira, 8 de março de 2016

“A criança, ao nascer, é só chorar.”


Não saí incólume ao perceber o que tu, decerto,
Desatenta, não ouviste.
E ali, imóvel, afastei-me demais, encharcado por um pranto sequioso, silente.
Parti e, nessa despedida, me despi das ilusões,
Do afável entorpecer, da vida como eu não percebia.
Ah, a mágoa diante do “se” daqueles dias – anos – que,
Sem mais falsa impugnação, passaram.
O padecer por quantos mais virão,
A fúria pela falha antecipação,
O descontentamento com a realidade.
Displicente, apático, imóvel.
Uma morte imprescindível ao lenitivo.
Um escarpado renascer de um brado
Para um quase inóspito lugar já, por mim, apossado.
A quem remeto meu choro?

domingo, 6 de março de 2016

A sisudez da fraude na criação
De um caminho das lágrimas que nunca caíram
Perpetra sorrisos que nunca serão frutos vívidos
 - de veracidade aos olhos,
Mas, viciosos em sua natureza,
Mantêm jazido, após uma lasca de ardis,
Um sempiterno embate.
Imaturo, sorri.
Circunspecto, lastimo sorrindo.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

As luzes do sofrimento e do mistifório estão acesas.
Apareço? Ressurjo diante delas?
Puro embuste da sombra que me segue,
Tateia-me num pandemônio, atormenta-me em insídias. 
Ofuscado, confuso, perdido e parado no caminhar,
Tento, carinhosa e fracassadamente, abraçar fantasmas.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Sentido proibido

Siga em frente, elas tentam ordenar.
Mude de sentido, não vá por aí,
Volte de onde estás.
Placas, sinais, avisos durante todo o caminho.
Talvez a falta deles fizesse mais sentido,
Mas em qual sentido continuar?
Nessa autoestrada, não vejo horizonte, não vejo limites
E toda essa sinalização impede de me ultrapassar.
Esqueço o tráfego e sigo no modo automático
Para um destino que desconheço muito bem.
Ofego, somático transeunte dentro desta máquina,
Sinalizo para o outro, que recusa a enxergar e
Eu me distraio olhando o retrovisor.
Vejo-me imprudente, infrator e sobe-me, tão alta,
A culpa pela intenção de querer sê-lo.
Destino selado.
Morto por precisas indicações,
Vivo por um irresoluto, mas desejado,
Acidente.