Ainda acordo com gosto de fracasso.
O espelho diz que não sou poeta,
sou um homem que digita devagar
enquanto o mundo cobra juros.
Escrevo num caderno barato.
As letras saem tortas,
como se também estivessem com medo
de não servir pra nada.
Já pensei em desistir.
Várias vezes.
Jogar tudo na gaveta
e aceitar um emprego
onde ninguém pergunta
o que eu sinto às três da manhã.
Mas há uma frase que insiste.
Uma mulher que não morreu.
Um beco que inventei
e agora me chama de volta.
Ela quer saber quem é.
Quer que eu termine a história dela
antes que eu termine a minha.
Eu não tenho dinheiro.
Não tenho aplausos.
Tenho uma mesa bamba,
um relógio parado,
um silêncio que late.
Mesmo assim,
quando a cidade dorme
e o medo cochila,
eu escrevo.
Não porque acredito em prêmios.
Escrevo porque se eu não escrever,
alguém dentro de mim
morre sem certidão.
Talvez nunca venda um livro.
Talvez ninguém saiba meu nome.
Talvez eu morra num quarto alugado
com páginas suficientes
para forrar o caixão.
Mas hoje tem uma página.
Hoje tem uma vida
que só existe porque eu insisti.
Hoje eu ganho o pão
de um jeito torto:
invento gente,
perco gente,
choro por gente que não existe
e ainda assim acordo amanhã.
Isso não é glória.
É mais que isso.
É um homem comum
segurando o mundo
com uma caneta sem tinta,
soprando em cima
até ela voltar a escrever.