O passo que dou agora
já não é meu.
Pertence ao chão que cede
ao ar que desloco
ao tempo que uso.
Passo e o mundo passa.
Passa o dia na janela
passa a fome na esquina
passa a vida que não pede licença.
Passeio entre os restos
do que não fiz direito.
O passado não passa
ele se senta à beira do caminho
e assiste meu passo vacilante
como quem vê um filme
já sabendo o final.
Uma passagem
Estreita entre o medo e o esquecimento.
Secreta, que só os pés conhecem
quando a cabeça dorme.
Passo em falso
e o mundo inteiro treme.
Passo firme
e ninguém nota.
O passo certo não faz barulho
apenas chega.
Há os que passam sem marcar.
Há os que marcam sem passar.
Eu quero apenas passar
deixando no chão
o desenho breve de um pé
que a próxima chuva apaga.
Passo a passo
a estrada some atrás de mim.
Passo a passo
o que vem adiante ainda é névoa.
Só o passo é real
só ele negocia com o chão
só ele sabe o peso
de carregar um corpo
que insiste em ir.
Quando paro
não é descanso
é pausa para ouvir
o passo dos outros
que continuam
que sempre continuarão
porque a vida é isso
gente passando
gente passando
gente passando.
E no fim
o que fica
não é o passo
mas a passagem.
O vão que se abriu
entre um pé e outro
entre um dia e outro
entre eu
e o silêncio.
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