quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Passo

 O passo que dou agora

já não é meu.

Pertence ao chão que cede

ao ar que desloco

ao tempo que uso.

Passo e o mundo passa.

Passa o dia na janela

passa a fome na esquina

passa a vida que não pede licença.

Passeio entre os restos

do que não fiz direito.

O passado não passa

ele se senta à beira do caminho

e assiste meu passo vacilante

como quem vê um filme

já sabendo o final.

Uma passagem

Estreita entre o medo e o esquecimento.

Secreta, que só os pés conhecem

quando a cabeça dorme.

Passo em falso

e o mundo inteiro treme.

Passo firme

e ninguém nota.

O passo certo não faz barulho

apenas chega.

Há os que passam sem marcar.

Há os que marcam sem passar.

Eu quero apenas passar

deixando no chão

o desenho breve de um pé

que a próxima chuva apaga.

Passo a passo

a estrada some atrás de mim.

Passo a passo

o que vem adiante ainda é névoa.

Só o passo é real

só ele negocia com o chão

só ele sabe o peso

de carregar um corpo

que insiste em ir.

Quando paro

não é descanso

é pausa para ouvir

o passo dos outros

que continuam

que sempre continuarão

porque a vida é isso

gente passando

gente passando

gente passando.

E no fim

o que fica

não é o passo

mas a passagem.

O vão que se abriu

entre um pé e outro

entre um dia e outro

entre eu

e o silêncio.

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