Queria ser um escritor.
Não por glamour,
mas porque as palavras
podem pagar o aluguel
se eu souber sangrar direito.
Ter meu sustento nas palavras.
Acordar antes do sol
e sentar diante da página
como quem bate ponto
numa fábrica de fantasmas.
Criar mundos.
Pôr gente neles.
Dar a essa gente fome, medo, esperança.
Amar e odiar personagens,
meus personagens,
eu mesmo em personagem.
Ser o juiz e o réu
na mesma folha.
Ganhar o mundo
sem sair da cadeira.
Conhecer mais histórias
do que cabem numa vida.
Ouvir o vizinho, o cobrador,
a mulher que espera o ônibus
e inventar o que ela não diz.
Depois voltar para mim
e escrever o que não sei.
Não quero ser importante.
Quero ser lido
por alguém cansado,
num quarto pequeno,
que pense: esse sujeito
entendeu o recado.
Quero morrer um pouco
em cada parágrafo
e continuar vivo
na próxima frase.
Mas enquanto isso não acontece,
lavo a louça,
pago a conta,
olho o papel em branco
e digo baixinho:
ainda não.
ainda não.
hoje.
Nenhum comentário:
Postar um comentário