quinta-feira, 24 de setembro de 2026

 Queria ser um escritor.

Não por glamour,

mas porque as palavras

podem pagar o aluguel

se eu souber sangrar direito.

Ter meu sustento nas palavras.

Acordar antes do sol

e sentar diante da página

como quem bate ponto

numa fábrica de fantasmas.

Criar mundos.

Pôr gente neles.

Dar a essa gente fome, medo, esperança.

Amar e odiar personagens,

meus personagens,

eu mesmo em personagem.

Ser o juiz e o réu

na mesma folha.

Ganhar o mundo

sem sair da cadeira.

Conhecer mais histórias

do que cabem numa vida.

Ouvir o vizinho, o cobrador,

a mulher que espera o ônibus

e inventar o que ela não diz.

Depois voltar para mim

e escrever o que não sei.

Não quero ser importante.

Quero ser lido

por alguém cansado,

num quarto pequeno,

que pense: esse sujeito

entendeu o recado.

Quero morrer um pouco

em cada parágrafo

e continuar vivo

na próxima frase.

Mas enquanto isso não acontece,

lavo a louça,

pago a conta,

olho o papel em branco

e digo baixinho:

ainda não.

ainda não.

hoje.

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